O Feiticeiro de Oz - Nem tudo foi mágico



Decidi, depois de ver "Wicked" no cinema, que daria uma oportunidade ao "Feiticeiro de Oz" (The Wizard of Oz) que está disponível na Max, e assim foi, e devo dizer que fiquei encantado com o filme.

O filme foi lançado em 1939, não sendo o primeiro filme a cores de Hollywood, foi certamente aquele que mais impacto teve pelo uso das cores no mundo cinematográfico naquela época. De cores vibrantes e com efeitos especiais que mesmo nos dias de hoje nos causam espanto, como por exemplo o tornado ou a bolha de Glinda numa altura em que CGI era apenas uma fantasia de entusiastas futuristas.

Antes de Oz, em 1908, o primeiro documentário a ser projetado em cor natural usando a técnica chamada de Kinemacolor foi A Visit to the Seaside que mostrava o dia-a-dia das pessoas daquela época, e o primeiro filme de "não documentário" usando a mesma técnica foi The World, The Flesh, and the Devil, lançado no mesmo ano, sendo este o filme que oficialmente pode receber o título de filme realmente a cores.


Kinemacolor é o antecessor do Techicolor. O Techinicolor foi usado nas gravações do "Feiticeiro de Oz".

O que torna o Feiticeiro de Oz tão importante foi o impacto que ele teve no uso da cor, mas nem tudo foi mágico na produção do filme. Desde abuso psicológico a envenenamento, coisas ruins aconteceram.

De Dorothy ao Homem de Lata - As tragédias por detrás do filme.


A Dority só ganhava mais que o cão


A actriz Judy Garland que fez Dorothy, tinha 16 anos na altura e teria que interpretar uma jovem de 10 anos. Como o seu corpo já estava a se desenvolver por causa da puberdade, ela teve que usar um espartilho para comprimir os seus seios.

Além disso, o ambiente de trabalho era hostil. A produção dizia que ela era uma porca gorda e começou uma intensa pressão sobre a jovem desde controlar o que comia, e obrigá-la a fazer dietas, fumar e tomar remédio para emagrecer. O remédio era Dexedrine, usado hoje em dia, por exemplo, para o transtorno de défice de atenção e hiperactividade, mas também a depressão e narcolepsia. Os efeitos colaterais incluem paranóia e insónia. Juday Garland juntamente com este remédio, também tomava remédios para dormir.

Comparando o seu salário com os restantes elementos do elenco principal, ela tinha o segundo mais baixo, sendo só maior do que Toto, o cão.

Homem de lata quase morreu


Inicialmente, o actor escolhido para ser o Homem de Lata foi Buddy Ebsen, mas ele teve que ser trocado por Jack Haley. Durante a produção do filme, tiveram que inventar uma maquiagem especial para dar o seu ar metálico. Para isso, usaram pó de alumínio, só que o pó quando inalado pode causar uma reacção extremamente adversa. Foi o que aconteceu com Buddy Ebsen que teve que ser hospitalizado à beira da morte.

Chamaram então Jack Haley para substituir Buddy Ebsen e por causa do acontecido, mudaram a fórmula para uma pasta, continuando a ter alumínio. Após as gravações, Jack Haley teve que ser operado a um olho.

A bruxa má do Oeste ficou queimada


Em uma das cenas em que a bruxa má vai embora, era suposto o alçapão abrir para que a atriz pudesse sair de cena, mas por uma avaria, isso não aconteceu. O problema é que a cena envolvia outros efeitos resultando na maquiagem da actriz pegar fogo. A actriz recusou voltar a fazer cenas parecidas e então o estúdio arranjou uma dublê. A dublê também teve queimaduras pelos mesmos motivos.

Munchkins eram mal pagos e outros absurdos


Munchkins, o povo que Doroty encontra quando caiu do tornado era composto por anões, que não recebiam a atenção nem o devido crédito por parte da produção. Eles eram tão mal pagos que recebiam menos que Toto, o cão, e alguns chegam a se prostituir para conseguir chegar ao fim do mês. A triste história por detrás de alguns destes actores era que eles eram exilados da Alemanha Nazi e tinham fugido do extermínio por causa das políticas de "higiene social". Alguns destes actores foram comprados às suas famílias que os rejeitaram por causa do nanismo.

A roupa do Leão, hoje em dia, completamente inadmissível por causa dos direitos dos animais, foi feito de leões verdadeiros.

O estúdio era fortemente iluminado para garantir a correcta filmagem em Technicolor que fazia a temperatura ambiente subir muito, e o material usado na roupa do leão também era bastante quente, o que fazia o actor Bert Lahr passar mal por causa do calor. O actor suava tanto que a roupa tinha que ser seca todos os dias por causa da transpiração.

Em uma cena Dority e os seus amigos estão num campo de papoilas e a Bruxa Má do Oeste lança um feitiço que os faz adormecer. Glinda, para ajudar eles a acordar, faz com neve caia do céu. O problema é que a neve foi feita com amianto, uma substância conhecida por ser perigosa para a saúde.

Conclusão


O "Feiticeiro de Oz" não ganhou de imediato, o reconhecimento e nem se tornou o sucesso que é hoje. O filme não teve uma bilheteira fantástica e na 12ª cerimónia dos Óscares ganhou apenas para Melhor Música Original pelo seu "Over the Rainbow", Melhor Banda Sonora e o Óscar Juvenil Honorário dado à actriz Judy Garland.

Algumas das coisas más que aconteceram podem ser justificadas com a mentalidade da época, como por exemplo, a falta de consideração pelos direitos dos animais. Relativamente ao uso de amianto, na altura existiam algumas evidências do perigo, mas só na década de 70 começaram a ser discutidas e na década de 90, quase 6 décadas depois é que começaram as proibições.

Outras coisas são tão ultrajantes hoje como na década de 30. O abuso de Judy é o gritante, mas podemos juntar à lista, a falta de atenção para os acidentes de trabalho e o desrespeito para os actores que fizeram os Munchkins.

Ainda assim, o "Feiticeiro de Oz" é um ícone cultural amado por muitos.

Fontes:
  • Amanda Bruce e Nicolas Ayala. "What The First Color Film Really Is (It’s Not Wizard Of Oz)." Screenrant, 15/12/2023, https://screenrant.com/first-color-movie-world-flesh-devil-wizard-oz/.
  • Peggy Rosenthal. "The Disastrous Wizard of Oz ." Image Journal, 01/01/2025, https://imagejournal.org/2018/09/06/the-disastrous-wizard-of-oz/.
  • Julie Miller. "The Wizard of Oz: Five Appalling On-Set Stories." Vanity Fair, 23/08/2019, https://www.vanityfair.com/hollywood/2019/08/wizard-of-oz-appalling-stories.
  • Stephanie Linning. "The scandalous legacy of the Wizard of Oz ." Daily Mail, 16/08/2022, https://www.dailymail.co.uk/femail/article-11115695/The-scandalous-legacy-Wizard-Oz.html.
  • AHC Admin. "Behind the Curtain: A Look at The Wizard of Oz’s Difficult Production 85 Years Later." Ahcwyo, 05/08/2024, https://ahcwyo.org/2024/08/05/behind-the-curtain-a-look-at-the-wizard-of-ozs-difficult-production-85-years-later/.
  • José Manuel Esteves Marques Janela e Pedro José Silva Pereira. "História do amianto no Mundo e em Portugal." Faculda de Letras, 02/02/2025, https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/14799.pdf#page=1.72

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